O Stand-up comedy de um motoboy


Vivenciei (e registrei) esse fato em 2003, um dia antes do meu aniversário. Acho que vale a pena mostrar aqui. Reparem que esse episódio só vem a confirmar meu status de “popular”, explicado em detalhes no post anterior.

Mano, o barato foi doido hoje…
Estava eu, a bordo do Barata (meu outro carro que não o Caspeira), indo tranquilamente comprar insumos no CEASA para produzir minhas belíssimas fontes feng-shui.
Passava na Av. Interlagos, bem ao lado do autódromo, ouvindo Jovem Pan AM (620Khz). O programa era um noticiário que falava da entrega da declaração de imposto de renda, cujo prazo encerraria em 30/04, às 20h00min.
Eu estava indo tranqüilão e ao passar ao lado do Cingapura notei a presença quase imperceptível de dois caras em suas respectivas motos Kawasaki verde limão, sendo que um, mais coerente, trajava uniforme de corrida em couro, também verde limão e capacete verde limão com manchas vermelhas. O outro, muito brega, usava macacão em couro laranja fosforescente e capacete verde limão, com manchas amarelas. Pois bem, ambos estavam com suas motos estacionadas na saliência da avenida, feita para que os ônibus e lotações pkawasakiossam parar e recolher os passageiros, sem atrapalhar o fluxo dos carros.
Eu já filmei os maluquinhos de longe e continuei a observá-los, pensando o que todo mundo deveria estar pensando também – “Humpf!!! Esses caras acham que só porque estão do lado do autódromo, fantasiados de pilotos de motovelocidade, neguinho vai achar que eles são pilotos de verdade. Hahaha… Babacas…”.
Conforme fui me aproximando dos arremedos de Wayne Rayne e Randy Mamola, eles começaram a sair do ponto. Eu pensei: “Agora os caras saem rasgando e aí ó, nem me viu…”. Que nada, os caras saíram numa boa, até devagar demais. Ultrapassei os malucos e segui tranqüilo, ouvindo o noticiário na Jovem Pan.
Dei uma olhadela no retrovisor e saquei que um moto boy lá atrás havia notado a presença dos farsantes, logo adiante. O mano acelerou a CGzinha podreira dele e passou ventando do lado dos “pilotos”. Tirou uma fininha e vazou a milhão.
Rachei o bico, sem saber que o mal estava por vir…
O moto boy entrou na minha frente e logo atrás de uma lotação, em um espaço que eu procurei manter por questões de segurança no trânsito. Dei um trago no cigarro e, através da cortina de fumaça que exalava de minha boca, fui deleitado com uma cena cinematográfica.
Sem qualquer motivo aparente a moto do cara deu uma guinada violenta e se espatifou no chão. Eu calculo que o cara devia estar a uns 76 Km/h, porque eu estava a 70 Km/h. O mano ficou preso entre a moto e o chão e foi sendo arrastado violentamente, em alta velocidade. Faíscas eram cuspidas pela ferragem da moto roçando no asfalto. Nesse momento eu diminuí a velocidade do Barata, de modo a não passar por cima do cidadão que estava brincando de tobogã no asfalto, diante dos meus perplexos olhos.
A moto começou a rodopiar e tomava o rumo da lotação, uma vez que o trânsito estava parando. O cara ainda preso… Achei que a desgraça seria grande.
Não sei se foi sorte ou se o moto boy possuía sangre frio e muita perícia, porque ele conseguiu, de algum jeito, se desvencilhar da moto milésimos de segundo antes dela se enterrar sobre a carroceria da lotação e terminar de ser dixavada pelo transporte popular. Graças a inércia, o maldito continuou rolando e ralando no asfalto por mais uns 100 metros, nem dublê de Hollywood faria melhor. O cara rolou de lado, depois mergulhou de peixinho no asfalto, depois deu uma série fantástica de cambalhotas de frente e de costas. Cheguei a achar que o mano ia virar uma estrela e depois ia terminar numa parada de mão digna de Nadia Comaneci. Mas que nada, o cara rolou muito, mas muito mesmo, até subir a calçada numa cambalhota meio de lado e parar no muro. O mais interessante em toda a apresentação do moto boy foi que ele estava com uma mochila nas costas, do tipo daquelas caixas de isopor que os entregadores de comida usam. Foi mais ou menos como ver um carro andando com uma roda quadrada, a cada volta completa de sua cambalhota, ele sofria um tranco do caixote acoplado em suas costas e dava um pulinho a mais, tirando toda sua estabilidade no deslize.
Isso tudo rolou num pedaço da Av. Interlagos onde só existem duas faixas de rolagem, então, nessa altura, eu já tinha colocado minha caranga no meio das duas faixas, evitando que alguém viesse a esmagar o desinfeliz.
Apresentação de gala terminada, só restava retirar o que sobrou do corpo. Bem, era assim que eu pensava. Como Fênix, que ressurgiu das cinzas, o malaco levanta e bate a mão pelo corpo, para tirar a poeira. Ele estava numa situação constrangedora, pois sua roupa havia se transformado em meros farrapos e o seu popô estava todinho de fora. Pelo diagnóstico preliminar que pude fazer, havia apenas algumas escoriações pelo corpo, principalmente nos braços, onde brotava sangue dos ralados. Imaginei que o suor que escorria e penetrava diretamente sobre a carne exposta devia arder muito mais que os próprios machucados em si.
Se eu achava que a humilhação maior era o fato do cidadão estar com a nadega à mostra, o tempo se encarregaria de mostrar que meu julgamento era improcedente.
Adivinha quem foram os primeiros samaritanos a socorrer o pobre desgraçado? Hein? Hein? Pois é, foram eles – Rayne e Mamola, hahahahahahahahaha. Nessa hora eu deixei minha parte cristã de lado e gargalhei da desgraça alheia.
Quando o mano viu que eram ELES os socorristas, saiu correndo e começou a chutar muito, mas muito mesmo o bagaço que sobrou de sua moto, ainda presa debaixo da lotação.
Os caras tentavam acalmá-lo, em vão.
CGPassado algum tempo, conseguiram tirar os restos mortais da CGzinha prateada debaixo da lotação e a removeram para a calçada, tomando todos os cuidados necessários, já que a moto demonstrava ter sofrido sério trauma na coluna cervical. O acidentado, por sua vez, tirou o capacete para poder averiguar melhor o estrago na moto e aí pude ver a cara do manguaceiro deslavado.
A essa altura, os populares se aglomeravam em torno do local e eu, como tenho carteirinha de “popular preferencial”, só poderia estar na pole position, assistindo tudo do conforto dos meus bancos de couro com o ar condicionado bombando.
Depois de certificarem que estava tudo OK com o carne moída, Rayne e Mamola se evadem do local, sem ao menos terem tirado seus capacetes verde limão. Foram embora com suas identidades mantidas no anonimato.
Que raiva me deu. Fiquei lá esse tempo todo e nem ao menos pude ver quem eram os motoqueiros que brilham no escuro.

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