A minha verdade e a verdade de verdade


Sim, o tão aclamado fim dos tempos chegou, se abateu sobre minha vida nesta noite. Um dos tesouros mais valiosos da vida são as recordações que temos de nossa infância. Pois bem, uma dessas recordações acaba de ser drasticamente dilacerada.
Estava vendo desenhos com o Enzo quando, subitamente, começa um dos meus preferidos: “A Lenda do Pico da Canção de Ninar”. Trata-se de um desenho do Picolino em que um urso polar tenta roubar os peixes boca cãodo freezer de um navio pesqueiro, mas há um cão de guarda com enormes mandíbulas e que sempre fode com o urso. Na verdade, o Picolino arma situações para que o cão abocanhe a bunda do faminto e simpático habitante das neves. Uma vez mordido, o urso pega o cão e começa a cantarolar uma musiquinha, embalando o pulguento em seu colo e o fazendo ninar. A última vez que eu vi esse desenho foi há uns 17 anos, talvez mais. Até então, pra mim, o urso cantava algo ininteligível, mas que convencionei ser:

“Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.”

A música era assim e ponto final, não havia margem para discussão, nunca houve. Ninguém jamais questionou ao me ouvir cantarolar a tal musiquinha onomatopéica. Pelo contrário, todo mundo prontamente se recordava do desenho ao ouví-la dessa maneira, principalmente quando eu, após cantar a musica, repetia a frase tornada célebre pelo cachorro:

– Cante mais uma vez, está bem, Charlie.

E assim foram se passando os outonos, as primaveras, até que o imponderável propiciou que eu, já pai, estivesse sentado ao lado do meu filho, hoje, assistindo Cartoon Network. E por falar no meu filho, quantas não foram as vezes em que o embalei, quando lactente, cantando os famigerados versos. Me lembro de um dia em que minha esposa me ouviu balbuciando essa quadrinha, com o Enzo no colo, e perguntou de forma lacônica: – Que bosta é essa? Juro que tentei explicar, mas ela não deu a devida importância.
Voltando ao desenho, em determinado momento o urso Charlie aparece com uma partitura. Trata-se da partitura da música em questão, a partitura de Uatapatita. Consigo ler rapidamente o título no topo da partitura e não imagino que essas palavras derrubariam um mito. Os mitos deveriam ser eternos, então essa partitura é como uma adaga a dilacerar a minha memória da infância. Estava escrito “Rockabye Baby”. Na mesma hora ponho o notebook no colo e digito essas malfadadas palavras no Google, que me retorna aproximadamente 335.000 resultados em 0,10 segundos. Maldito Google que em um décimo de segundo destruiu uma fantasia que durava 33 anos. Pra vocês terem uma idéia da atrocidade que isso significa, ao colocarmos os números na mesma base nos damos conta de que 1.040.688.000 – isso mesmo, um bilhão, quarenta milhões, seiscentos e oitenta e oito mil segundos de fantasia foram jogados num abismo em apenas 0,10 segundos. Um crime hediondo, digno de ser narrado por Gil Gomes. Vou além, um atentado ao direito do ser humano de poder viver as suas próprias verdades. Enfim, descobri que o simpático:

“Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.”

era, na verdade, o escarnecimento que vos segue:

“Rock-a-bye baby, in the treetop.
When the wind blows, the cradle will rock.
When the bough breaks, the cradle will fall.
And down will come baby, cradle and all.”

Apenas lendo não é possível sentir na plenitude o que eu quero dizer. Música também é letra, claro, mas é muito mais que isso. Música é melodia, ritmo, entonação… Por isso, se por um lado a tecnologia me desgraçou, dando cabo de uma coisa legal, que era só minha e que sobreviveu por décadas, por outro lado vai permitir que eu mostre a vocês, aqui mesmo, o desenho ao qual me refiro. O meu drama, que aqui se encontra expresso em palavras, extrapolará as dimensões da escrita, poderá ser vivido em palavras, cores e sons. Se essa história estivesse nas páginas de um livro, não seria possível proporcionar essa experiência, portanto, essa é a minha vingança contra você, internet desgraçada.

2 Respostas para “A minha verdade e a verdade de verdade

  1. algumas correções: nunca, NUNCA pronunciei tal frase (Que bosta é essa?) ao ouvir o sr. eduardo ninando nosso filho. inclusive ele cantarolava o tal ‘uapapatita, uatapata’ quando o enzo ainda estava na minha barriga. ele dizia que mal podia esperar para poder pegar o seu filho no colo e poder cantar essa musiquinha para ele. eu sempre achei isso a coisa mais linda. outra correção: fui EU quem chamou a atenção para a versão original da música. estávamos mesmo vendo o desenho e apareceu a cena onde o urso cantarola essa canção de ninar. só naquele momento eu me dei conta que era o tal ‘rock-a-bye baby…” e eis que o sr. eduardo, inconformado, foi atrás da informação no Google. ainda prefiro a versão do sr. eduardo já que a letra da canção é deveras, digamos assim, agres-si-vi-nha.

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