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Tratado sobre a loucura

Tudo começou com o jantar sorrindo para mim.

Passou um tempo e eu comecei a refletir sobre as mudanças profundas pelas quais venho passando. Pelo fato d’eu saber que meus neurônios, as vezes, entram em curto e pelo temor que isso seja progressivo e degenerativo (e o pior, que isso possa ser passado adiante com maior facilidade que um Fiat 147 azul).
Estou enlouquecendo. O mais aflitivo e, talvez, injusto, percebo a evolução da doença. Já não sou eu mesmo, minhas atitudes e promessas de nada mais valem.

Sou um cidadão modelo, não jogo lixo na rua, paro para os velhos inúteis atravessarem a rua, cedo meu lugar aos incapacitados e faço tudo isso por acreditar nesses valores, por boa índole, mas já sou capaz de trair a mim mesmo. Ética das cavernas, fidelidade dos mercadores do século XV.
Minha verdade é como a verdade de todos vocês, é a meia verdade esplendidamente retratada pelo poeta Carlos Drummond de Andrade:

Verdade
(Carlos Drummond de Andrade)

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Não se iludam, não criem expectativas, eu já me desiludi muito e a muitos também. Não posso mais prometer nada sendo que não tenho controle sobre aquilo que outrora achava que tinha.
Pelo menos faço aquilo que grande parte de vocês não faz – Me escarneço em público antes de escarnecer o alheio. Sempre procuraram me doutrinar a controlar os instintos que me levam a declarar abertamente tudo isso. Não posso, não consigo ir contra minha natureza.

E por favor, tudo isso não é endereçado diretamente a ninguém, não tem destinatário certo nem recado subliminar. Não se trata de indireta, é diretamente minha massa cinzenta defecando.
Pelo 3º dia preciso do dobro da dose de Rivotril para apagar. Carlos Drumond de Andrade é poesia, mas Geto Boys também é.

MY MIND PLAYING TRICKS ON ME.

A minha verdade e a verdade de verdade

Sim, o tão aclamado fim dos tempos chegou, se abateu sobre minha vida nesta noite. Um dos tesouros mais valiosos da vida são as recordações que temos de nossa infância. Pois bem, uma dessas recordações acaba de ser drasticamente dilacerada.
Estava vendo desenhos com o Enzo quando, subitamente, começa um dos meus preferidos: “A Lenda do Pico da Canção de Ninar”. Trata-se de um desenho do Picolino em que um urso polar tenta roubar os peixes boca cãodo freezer de um navio pesqueiro, mas há um cão de guarda com enormes mandíbulas e que sempre fode com o urso. Na verdade, o Picolino arma situações para que o cão abocanhe a bunda do faminto e simpático habitante das neves. Uma vez mordido, o urso pega o cão e começa a cantarolar uma musiquinha, embalando o pulguento em seu colo e o fazendo ninar. A última vez que eu vi esse desenho foi há uns 17 anos, talvez mais. Até então, pra mim, o urso cantava algo ininteligível, mas que convencionei ser:

“Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.”

A música era assim e ponto final, não havia margem para discussão, nunca houve. Ninguém jamais questionou ao me ouvir cantarolar a tal musiquinha onomatopéica. Pelo contrário, todo mundo prontamente se recordava do desenho ao ouví-la dessa maneira, principalmente quando eu, após cantar a musica, repetia a frase tornada célebre pelo cachorro:

– Cante mais uma vez, está bem, Charlie.

E assim foram se passando os outonos, as primaveras, até que o imponderável propiciou que eu, já pai, estivesse sentado ao lado do meu filho, hoje, assistindo Cartoon Network. E por falar no meu filho, quantas não foram as vezes em que o embalei, quando lactente, cantando os famigerados versos. Me lembro de um dia em que minha esposa me ouviu balbuciando essa quadrinha, com o Enzo no colo, e perguntou de forma lacônica: – Que bosta é essa? Juro que tentei explicar, mas ela não deu a devida importância.
Voltando ao desenho, em determinado momento o urso Charlie aparece com uma partitura. Trata-se da partitura da música em questão, a partitura de Uatapatita. Consigo ler rapidamente o título no topo da partitura e não imagino que essas palavras derrubariam um mito. Os mitos deveriam ser eternos, então essa partitura é como uma adaga a dilacerar a minha memória da infância. Estava escrito “Rockabye Baby”. Na mesma hora ponho o notebook no colo e digito essas malfadadas palavras no Google, que me retorna aproximadamente 335.000 resultados em 0,10 segundos. Maldito Google que em um décimo de segundo destruiu uma fantasia que durava 33 anos. Pra vocês terem uma idéia da atrocidade que isso significa, ao colocarmos os números na mesma base nos damos conta de que 1.040.688.000 – isso mesmo, um bilhão, quarenta milhões, seiscentos e oitenta e oito mil segundos de fantasia foram jogados num abismo em apenas 0,10 segundos. Um crime hediondo, digno de ser narrado por Gil Gomes. Vou além, um atentado ao direito do ser humano de poder viver as suas próprias verdades. Enfim, descobri que o simpático:

“Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.
Uatapatita, uatapata.”

era, na verdade, o escarnecimento que vos segue:

“Rock-a-bye baby, in the treetop.
When the wind blows, the cradle will rock.
When the bough breaks, the cradle will fall.
And down will come baby, cradle and all.”

Apenas lendo não é possível sentir na plenitude o que eu quero dizer. Música também é letra, claro, mas é muito mais que isso. Música é melodia, ritmo, entonação… Por isso, se por um lado a tecnologia me desgraçou, dando cabo de uma coisa legal, que era só minha e que sobreviveu por décadas, por outro lado vai permitir que eu mostre a vocês, aqui mesmo, o desenho ao qual me refiro. O meu drama, que aqui se encontra expresso em palavras, extrapolará as dimensões da escrita, poderá ser vivido em palavras, cores e sons. Se essa história estivesse nas páginas de um livro, não seria possível proporcionar essa experiência, portanto, essa é a minha vingança contra você, internet desgraçada.

O Stand-up comedy de um motoboy

Vivenciei (e registrei) esse fato em 2003, um dia antes do meu aniversário. Acho que vale a pena mostrar aqui. Reparem que esse episódio só vem a confirmar meu status de “popular”, explicado em detalhes no post anterior.

Mano, o barato foi doido hoje…
Estava eu, a bordo do Barata (meu outro carro que não o Caspeira), indo tranquilamente comprar insumos no CEASA para produzir minhas belíssimas fontes feng-shui.
Passava na Av. Interlagos, bem ao lado do autódromo, ouvindo Jovem Pan AM (620Khz). O programa era um noticiário que falava da entrega da declaração de imposto de renda, cujo prazo encerraria em 30/04, às 20h00min.
Eu estava indo tranqüilão e ao passar ao lado do Cingapura notei a presença quase imperceptível de dois caras em suas respectivas motos Kawasaki verde limão, sendo que um, mais coerente, trajava uniforme de corrida em couro, também verde limão e capacete verde limão com manchas vermelhas. O outro, muito brega, usava macacão em couro laranja fosforescente e capacete verde limão, com manchas amarelas. Pois bem, ambos estavam com suas motos estacionadas na saliência da avenida, feita para que os ônibus e lotações pkawasakiossam parar e recolher os passageiros, sem atrapalhar o fluxo dos carros.
Eu já filmei os maluquinhos de longe e continuei a observá-los, pensando o que todo mundo deveria estar pensando também – “Humpf!!! Esses caras acham que só porque estão do lado do autódromo, fantasiados de pilotos de motovelocidade, neguinho vai achar que eles são pilotos de verdade. Hahaha… Babacas…”.
Conforme fui me aproximando dos arremedos de Wayne Rayne e Randy Mamola, eles começaram a sair do ponto. Eu pensei: “Agora os caras saem rasgando e aí ó, nem me viu…”. Que nada, os caras saíram numa boa, até devagar demais. Ultrapassei os malucos e segui tranqüilo, ouvindo o noticiário na Jovem Pan.
Dei uma olhadela no retrovisor e saquei que um moto boy lá atrás havia notado a presença dos farsantes, logo adiante. O mano acelerou a CGzinha podreira dele e passou ventando do lado dos “pilotos”. Tirou uma fininha e vazou a milhão.
Rachei o bico, sem saber que o mal estava por vir…
O moto boy entrou na minha frente e logo atrás de uma lotação, em um espaço que eu procurei manter por questões de segurança no trânsito. Dei um trago no cigarro e, através da cortina de fumaça que exalava de minha boca, fui deleitado com uma cena cinematográfica.
Sem qualquer motivo aparente a moto do cara deu uma guinada violenta e se espatifou no chão. Eu calculo que o cara devia estar a uns 76 Km/h, porque eu estava a 70 Km/h. O mano ficou preso entre a moto e o chão e foi sendo arrastado violentamente, em alta velocidade. Faíscas eram cuspidas pela ferragem da moto roçando no asfalto. Nesse momento eu diminuí a velocidade do Barata, de modo a não passar por cima do cidadão que estava brincando de tobogã no asfalto, diante dos meus perplexos olhos.
A moto começou a rodopiar e tomava o rumo da lotação, uma vez que o trânsito estava parando. O cara ainda preso… Achei que a desgraça seria grande.
Não sei se foi sorte ou se o moto boy possuía sangre frio e muita perícia, porque ele conseguiu, de algum jeito, se desvencilhar da moto milésimos de segundo antes dela se enterrar sobre a carroceria da lotação e terminar de ser dixavada pelo transporte popular. Graças a inércia, o maldito continuou rolando e ralando no asfalto por mais uns 100 metros, nem dublê de Hollywood faria melhor. O cara rolou de lado, depois mergulhou de peixinho no asfalto, depois deu uma série fantástica de cambalhotas de frente e de costas. Cheguei a achar que o mano ia virar uma estrela e depois ia terminar numa parada de mão digna de Nadia Comaneci. Mas que nada, o cara rolou muito, mas muito mesmo, até subir a calçada numa cambalhota meio de lado e parar no muro. O mais interessante em toda a apresentação do moto boy foi que ele estava com uma mochila nas costas, do tipo daquelas caixas de isopor que os entregadores de comida usam. Foi mais ou menos como ver um carro andando com uma roda quadrada, a cada volta completa de sua cambalhota, ele sofria um tranco do caixote acoplado em suas costas e dava um pulinho a mais, tirando toda sua estabilidade no deslize.
Isso tudo rolou num pedaço da Av. Interlagos onde só existem duas faixas de rolagem, então, nessa altura, eu já tinha colocado minha caranga no meio das duas faixas, evitando que alguém viesse a esmagar o desinfeliz.
Apresentação de gala terminada, só restava retirar o que sobrou do corpo. Bem, era assim que eu pensava. Como Fênix, que ressurgiu das cinzas, o malaco levanta e bate a mão pelo corpo, para tirar a poeira. Ele estava numa situação constrangedora, pois sua roupa havia se transformado em meros farrapos e o seu popô estava todinho de fora. Pelo diagnóstico preliminar que pude fazer, havia apenas algumas escoriações pelo corpo, principalmente nos braços, onde brotava sangue dos ralados. Imaginei que o suor que escorria e penetrava diretamente sobre a carne exposta devia arder muito mais que os próprios machucados em si.
Se eu achava que a humilhação maior era o fato do cidadão estar com a nadega à mostra, o tempo se encarregaria de mostrar que meu julgamento era improcedente.
Adivinha quem foram os primeiros samaritanos a socorrer o pobre desgraçado? Hein? Hein? Pois é, foram eles – Rayne e Mamola, hahahahahahahahaha. Nessa hora eu deixei minha parte cristã de lado e gargalhei da desgraça alheia.
Quando o mano viu que eram ELES os socorristas, saiu correndo e começou a chutar muito, mas muito mesmo o bagaço que sobrou de sua moto, ainda presa debaixo da lotação.
Os caras tentavam acalmá-lo, em vão.
CGPassado algum tempo, conseguiram tirar os restos mortais da CGzinha prateada debaixo da lotação e a removeram para a calçada, tomando todos os cuidados necessários, já que a moto demonstrava ter sofrido sério trauma na coluna cervical. O acidentado, por sua vez, tirou o capacete para poder averiguar melhor o estrago na moto e aí pude ver a cara do manguaceiro deslavado.
A essa altura, os populares se aglomeravam em torno do local e eu, como tenho carteirinha de “popular preferencial”, só poderia estar na pole position, assistindo tudo do conforto dos meus bancos de couro com o ar condicionado bombando.
Depois de certificarem que estava tudo OK com o carne moída, Rayne e Mamola se evadem do local, sem ao menos terem tirado seus capacetes verde limão. Foram embora com suas identidades mantidas no anonimato.
Que raiva me deu. Fiquei lá esse tempo todo e nem ao menos pude ver quem eram os motoqueiros que brilham no escuro.

Eu só queria fazer uma horinha

Numa tarde fria e chuvosa como a de hoje, nada melhor que um café. Enquanto eu tomava um expresso duplo e lia o livro “clube do cinema”, no Frans Café, um cara começa a entrevistar uma menina para vaga de recepcionista em uma empresa qualquer. Quando eles se sentaram à mesa (colada na minha), eu estava na página 127.
Presenciar um fato desses, para mim, tem o mesmo efeito que receber aquela benção pela qual você vem clamando há tempos. Sempre que isso acontece, me sinto uma cara de sorte. Paro e penso que estar naquele lugar, no exato momento em que o fato transcorre é, de certa forma, um presente maravilhoso. Fico imaginando quanta força o universo teve que fazer para que a conjunção “eu + fato acontecendo naquele exato momento” pudesse ocorrer, por isso respeito muito esses momentos únicos.
Sou um cara que sente verdadeiro prazer em presenciar situações peculiares, tanto que minha esposa me chama de “Popular”. Os “populares” são aquelas pessoas que sempre estão urubuzando os acontecimentos cotidianos. Que fazem muvuca em atropelamento, que param o carro pra ver briga de casal, que vêem na TV uma reportagem sobre uma cratera numa rua próxima e correm pra lá, a tempo de aparecer à la papagaio de pirata. São citados constantemente em programas “jornalísticos” do estilo Brasil Urgente – “Olha lá, a porta da delegacia já está lotada de populares querendo linchar o estuprador”. Esse sou eu.
A entrevista começa com o cara explicando para a candidata que as duas outras meninas presentes (quanta gente!) estavam lá porque são exemplos de que, naquela empresa, o crescimento hierárquico existe de fato. Ele relata que as duas começaram como recepcionistas e, vejam vocês, hoje uma é secretária e a outra é auxiliar da área fiscal (elas levaram 4 anos para galgar um tijolo na pirâmide de Quéops). Conversa vai, conversa vem… Eis que ouço um fato importante – A candidata em questão já havia sido entrevistada anteriormente, tendo sido submetida a uma série de duros testes de português e lógica, mas foi preterida por outra, melhor preparada. O entrevistador explica que a moça contratada à época se mostrou um fiasco. Na verdade, ela até que era boa… Mas era ruim. Fazia bem o trabalho, mas pecava na postura. Não restou outra saída senão a demissão. Por conta de tudo isso, ele resolveu dar uma chance para a atenta ouvinte, apesar do desempenho sofrível que ela teve nos testes (ele fez questão de frisar isso).
– Você sabe operar PABX? Ele dispara.
– Não. Ela responde.
– E planilhas de Excel, você manuseia?
– Informática não é o meu forte.
– Ah, mas você deve conhecer um pouco… Pelo menos mexer no MSN você sabe, né?
– Sim!!! Claro que sei.
– Tem Orkut?
– Tenho. Com coisas de internet eu sei me virar bem.
– Pois é. Você não conhece o que precisa, mas sabe tudo das coisas que não vão te levar a lugar nenhum.
Nessa hora, ainda na página 127 (é claro que eu não evoluí uma linha sequer na leitura, desde o momento em que eles se sentaram), eu dei três batidinhas com o dedo indicador na página do livro e soltei uma risadinha, como se algo engraçado tivesse acabado de acontecer naquele pedaço da história. Logo depois de pensar: “chupa, sua burra do caralho”, me peguei imaginando qual seria o motivo que leva um cara a apavorar uma candidata, deixando claro que ela era a segunda (e péssima) opção e, que num ato de altruísmo com magnitude só antes vista em USA for Africa – We are the world, ele estava lhe concedendo a chance de ouro da sua vida, quando, na verdade, ele estava tão desesperado em achar alguma otária para tapar o buraco na recepção como ela estava em se livrar do atual emprego (caixa na loja Besni do shopping Interlagos).cafebombom2
A entrevista prosseguiu com o cara sacando de uma maleta 007 os testes de português e lógica que ela havia realizado. Me ajeitei na poltroninha, cruzei a perna para o outro lado e, educadamente, solicitei a presença da barista. Certamente aqueles testes valeriam o café bombom que eu acabara de pedir.
O entrevistador pergunta:
– Você estava muito nervosa quando fez os testes?
– Bastante! Nossa, eu suei frio, fiquei muito nervosa.
– É, eu imaginei assim que dei uma olhada neles. Essa é a única explicação para os erros de português que eu vi ali. Ou era isso ou então você tem bastante dificuldade com o português.
(Bom, eu também tenho bastante dificuldade em lidar com o português. O Seu Manoel nunca deixa eu ficar devendo R$ 0,05 quando vou comprar pãozinho, é duro dobrar o velho).
O diálogo prossegue:
– Nessa questão de lógica – “segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado… Que palavra completa de forma correta essa seqüencia?” – Você respondeu domingo, certo?
– Isso, respondi domingo. Por quê? Não tá certo?
– Sim, está certo, mas você escreveu “domingo” errado.
Beberiquei meu café bombom e tentei imaginar onde ela poderia ter errado a palavra “domingo”. Se ainda fosse uma “tersa” ou “sesta” eu até entenderia, mas teria ela escrito “dumingú”? Aí já é demais!
– Aqui nessa pergunta – “Alguns meses têm 30 dias, outros 31. Quantos meses têm 28 dias?”, você respondeu 12 meses.
YES!!! Comemorei em pensamento. Não acredito que essa Equus mulus acertou uma questão com pegadinha.
A entrevista prossegue, agora com o teste de português em foco.
– Por favor, mocinha, você me consegue uma caneta e uma toalha de papel? Pede o algoz à garçonete.
– Em um minuto.
Aproveito o intervalo para finalizar o café bombom e para tentar evoluir à página 128, mas a garçonete mostrou-se mais competente do que previra, me impedindo de avançar 4 linhas sequer.
– Bom, agora eu vou pedir pra você escrever algumas palavras aí nesse papel que a moça trouxe. Eu vou falando e você vai escrevendo, tá?
– Tá bom…
– Escreve aí: Ambiente de trabalho… Gerência Financeira… Assistente de diretoria… Enfim, o cara pediu que ela escrevesse umas 15 palavras e frases, não vou lembrar de todas. Ao término da sabatina, ele tomou a toalha de papel nas mãos e começou a corrigir, com ares de Prof. Pasquale. A letra da candidata devia ser bem feia, porque ele não parava de perguntar a todo instante o que estava escrito, que letra era aquela, se aquilo era um “g” ou um “ç” e coisas do gênero. Depois de sanar todas as suas dúvidas, ele explicou que pediu a ela que escrevesse justamente as mesmas palavras / frases que ela errara na primeira vez que fez a provinha. Surpreendentemente, dessa vez ela acertara bem mais do que na primeira vez (apesar de ter escrito “ambiente com H – Hambiente), o que validou a tese do nervosismo, levantada no começo da conversa.
Ele explicou para a moça que, obviamente, não estava atrás de uma professora de português, afinal, até mesmo ele comete alguns equívocos de vez em quando. Prosseguiu dizendo que o cargo de recepcionista requer um pouco mais de cuidado com a escrita, uma vez que ela seria a responsável por anotar os recados da diretoria (que responsa!!! Diretoria!!!).
Com o papo já praticamente encerrado, ele pergunta o que a moça pretendia fazer para evoluir, seja na carreira ou na língua pátria. A resposta dela me deixou espavorido:
– Agora que terminei o 3º colegial, eu queria fazer faculdade de administração. Tem até a ver com o trabalho, né? (se ela não tivesse dito, mas escrito, tenho certeza que o resultado seria “Tem até haver com o trabalho, né?”).
Eu jurava, até então, que a pobre menina teria estudado só até a sexta série, face aos erros grotescos de português, bem como o vocabulário pobre e cheio de vícios.
Nesse momento, com o assunto girando em torno de estudo e afins, lembrei que só estava ali no café pra fazer uma horinha, tendo que ir buscar o Enzo na escola em seguida. Achei melhor pagar a conta e ir embora, mesmo sem saber o desfecho da entrevista. Já pensou se eu chego atrasado, deixo o Enzo nervoso e crio um trauma na criança? Provavelmente os próximos passos dele seriam:
1- Passa a odiar a escola;
2- Desenvolve ojeriza aos estudos;
3- Decide que aquilo não é pra ele;
4- Vai ganhar a vida como caixa da Besni;
5- Insatisfeito com o trabalho de caixa, vai em busca de novos horizontes (como recepcionista, por exemplo).

Aqui é praga

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Dizem que as joaninhas carregam a sorte em suas asas pintadinhas. Sempre que alguém se depara com uma, se apressa em pegá-la com a ponta dos dedos. Adoram ver esse inseto perambular pela mão, pelo braço. Quando ela chega ao fim da linha, correm a fazer a ponte para a outra mão, com a intenção de prorrogar o contato com o ágil bichinho. Na maioria das vezes, o encontro é casual e resulta em sorrisos e momentos agradáveis.
Aqui em casa joaninha é praga!
Convivo com elas há algum tempo, pois minha esposa é aficionada do dito hexápode. No último levantamento que fizemos aqui em casa, foram contabilizados aproximadamente 30 itens com o tema  – grampeador, porta recados, móbile, caneta, porta jóia, marcador de livro, massageador, pregador, imã de geladeira, relógio, pelúcia, banquinho de madeira, presilha de cabelo, caixa de papelão, colar, broche, pulseira, guardanapo, pantufa, etc. Ah, fora a tatuagem no pulso!
Pois bem, mas não são de seres inanimados que estamos falando. Elas, as vivas, resolveram tomar de assalto o meu bambu. Acho que o desequilíbrio ecológico começou em virtude da infestação de pulgões que assolou a pobre planta. Alguma joaninha que vagava pelas redondezas deve te visto a fartura de alimento e resolveu montar acampamento. Empolgada com o banquete, resolveu botar uns ovinhos e fixar residência.joaninha2
O ciclo da joaninha me lembrou muito o das borboletas. De uma larva peludinha, ela passa a um híbrido de taturana com joaninha e finalmente larga a casca desse corpo feio para virar aquele fusca vermelho de bolinhas pretas.
Para mim elas não trouxeram sorte, porque aproveitei a estada delas por aqui e joguei 10 bilhetes na mega sena, fora o bolão de comprei na lotérica. O investimento valia a pena, afinal, estavamos falando de um prêmio acumulado de aproximadamente 40 milhões de reais. Meu desempenho foi pífio, tendo acertado apenas um mísero número. No entanto, não posso reclamar, afinal, essas simpáticas criaturas trabalharam bem por aqui e já deram um jeito nos pulgões. Acho que fui injusto em chamar essa miríade de praga.

Yes Man, mas nem tanto

Desde que migrei minha internet para 3 megas (Skavurska!!!), passo boa parte do meu tempo ocioso baixando filmes e jogos de Playstation pro Enzo (coisa linda baixar filmes em minutos). Pesquisando os últimos lançamentos na Blockbuster (que deu bye bye pro meu dinheiro), resolvi baixar Sim Senhor. Comecei a assistir um pouco desconfiado, afinal, ele havia sido elogiado pelo Guigão, famoso na rodinha por alugar filmes de gosto duvidoso – Quer um exemplo? Uma vez fizemos uma vaquinha (elas eram magras nessa época) e deixamos que ele fosse sozinho na locadora, com direito a escolher o filme por conta própria. O cara voltou com um sorriso no rosto, peito estufado, semblante do dever cumprido. Ao abrirmos a sacolinha, nos deparamos com o filme Uma Família Quase Perfeita. Acho que não precisaria dizer mais nada, mas houve episódio pior. Ele recomendou Dançando no Escuro, com a insuportável Bjork. Ali eu aprendi a lição.yes_man

Bom, filmes ruins à parte, lá fui eu assistir a Sim Senhor, com Jim Carrey e suas caretas. Filme legal…zinho, deu para dar umas risadas. A principal característica do filme é que todo mundo que assiste tem a mesma reação – A partir de agora, só direi SIM a tudo. Não adianta, mesmo que você tente fugir da mesmice, do lugar comum, você também vai fazer essa infeliz piadinha em algum momento (e se não disser, vai pensar). Assim foi comigo, logo que o letreiro subiu. Fiz a piadinha para minha esposa, já sabendo dos abusos que viriam a seguir – “Eliane, de agora em diante sou um Yes Man”. E o abuso não tardou: ”Vai pegar água”, ”vai por o Enzo na cama”, “Vai sacar o dinheiro da empregada e aproveita e faz o resto do mercado”… SIM !!!!!!! Fiz tudinho, e com sorriso no rosto.

Tarefas terminadas, fui dormir o sono dos justos. Bom, não devo ser muito justo, porque fui acordado logo cedo por, digamos assim, uma mocinha do “telemarketing ativo do bem”:  

– Sr. Carlos?

– O Próprio.

– Bom dia, aqui é a Rafaela Soares, da Casa de Apoio à Criança com Câncer (confesso não lembrar se era esse mesmo o nome da instituição, pois o sono era devastador).

– Bom dia Rafaela Soares (normalmente, quando atendo a uma ligação que começa com “Bom dia Sr. Carlos”, desligo na cara, sem dó… Mas os reflexos lentos em virtude do sono, somados às palavras “criança” e “câncer” me fizeram ter um respeito maior pela interlocutora).

– Estamos precisando comprar 2 ampolas de remédio para a pequena Fabiana, que tem 6 anos e está com câncer longitudinal mediástico de grau inverso e inclinação negativa elíptica (em hipótese alguma estou fazendo paródia com algo tão devastador, mas a mocinha especificou o tipo de câncer tão rápido, de uma maneira tão enrolada, e eu estava em estado de absoluta letargia, que o resultado em meu cérebro foi algo parecido com isso), e estamos precisando estar comprando essas ampolas, uma vez que o governo não fornece (isso sim é fazer paródia com o sofrimento alheio). Olha, Sr. Carlos, cada ampola custa aproximadamente R$ 500,00 e gostaríamos de poder estar contando com sua ajuda.

Aquilo realmente me tocou, afinal, tratava-se da vida de uma criança. Criança é tudo de bom, criança é alegria, criança é amor sincero, criança é… vida. Mas, sem ter rendimento fixo no momento, devendo o barril pro banco (a cueca já foi) e em débito com qualquer lugar onde seja possível se fazer uma dívida, não poderia ajudar (para minha sincera infelicidade), ao que respondo:

– Poxa vida, Rafaela… Faço sinceros votos que vocês consigam ajudá-la, mas se você conseguiu falar comigo a essa hora e em casa é porque, infelizmente, estou desempregado. Dessa vez não poderei ajudar. Mas continue com esse empenho que ainda hoje a Fabiana vai conseguir o que precisa e o governo não dá.

Ela agradeceu e desejou que Deus pudesse me abençoar com uma recolocação rápida no mercado de trabalho. Em retribuição, lhe agradeci por sua atuação numa tarefa tão difícil, que é esmolar aos outros o que é dever do governo fornecer (não preciso nem citar os direitos de um cidadão, que constam da carta magna deste país).

No exato momento em que desliguei o telefone, me dei conta de que a brincadeira do “Yes Man” não durou nem 12 horas. É muito mais fácil na ficção.