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Eu só queria fazer uma horinha

Numa tarde fria e chuvosa como a de hoje, nada melhor que um café. Enquanto eu tomava um expresso duplo e lia o livro “clube do cinema”, no Frans Café, um cara começa a entrevistar uma menina para vaga de recepcionista em uma empresa qualquer. Quando eles se sentaram à mesa (colada na minha), eu estava na página 127.
Presenciar um fato desses, para mim, tem o mesmo efeito que receber aquela benção pela qual você vem clamando há tempos. Sempre que isso acontece, me sinto uma cara de sorte. Paro e penso que estar naquele lugar, no exato momento em que o fato transcorre é, de certa forma, um presente maravilhoso. Fico imaginando quanta força o universo teve que fazer para que a conjunção “eu + fato acontecendo naquele exato momento” pudesse ocorrer, por isso respeito muito esses momentos únicos.
Sou um cara que sente verdadeiro prazer em presenciar situações peculiares, tanto que minha esposa me chama de “Popular”. Os “populares” são aquelas pessoas que sempre estão urubuzando os acontecimentos cotidianos. Que fazem muvuca em atropelamento, que param o carro pra ver briga de casal, que vêem na TV uma reportagem sobre uma cratera numa rua próxima e correm pra lá, a tempo de aparecer à la papagaio de pirata. São citados constantemente em programas “jornalísticos” do estilo Brasil Urgente – “Olha lá, a porta da delegacia já está lotada de populares querendo linchar o estuprador”. Esse sou eu.
A entrevista começa com o cara explicando para a candidata que as duas outras meninas presentes (quanta gente!) estavam lá porque são exemplos de que, naquela empresa, o crescimento hierárquico existe de fato. Ele relata que as duas começaram como recepcionistas e, vejam vocês, hoje uma é secretária e a outra é auxiliar da área fiscal (elas levaram 4 anos para galgar um tijolo na pirâmide de Quéops). Conversa vai, conversa vem… Eis que ouço um fato importante – A candidata em questão já havia sido entrevistada anteriormente, tendo sido submetida a uma série de duros testes de português e lógica, mas foi preterida por outra, melhor preparada. O entrevistador explica que a moça contratada à época se mostrou um fiasco. Na verdade, ela até que era boa… Mas era ruim. Fazia bem o trabalho, mas pecava na postura. Não restou outra saída senão a demissão. Por conta de tudo isso, ele resolveu dar uma chance para a atenta ouvinte, apesar do desempenho sofrível que ela teve nos testes (ele fez questão de frisar isso).
– Você sabe operar PABX? Ele dispara.
– Não. Ela responde.
– E planilhas de Excel, você manuseia?
– Informática não é o meu forte.
– Ah, mas você deve conhecer um pouco… Pelo menos mexer no MSN você sabe, né?
– Sim!!! Claro que sei.
– Tem Orkut?
– Tenho. Com coisas de internet eu sei me virar bem.
– Pois é. Você não conhece o que precisa, mas sabe tudo das coisas que não vão te levar a lugar nenhum.
Nessa hora, ainda na página 127 (é claro que eu não evoluí uma linha sequer na leitura, desde o momento em que eles se sentaram), eu dei três batidinhas com o dedo indicador na página do livro e soltei uma risadinha, como se algo engraçado tivesse acabado de acontecer naquele pedaço da história. Logo depois de pensar: “chupa, sua burra do caralho”, me peguei imaginando qual seria o motivo que leva um cara a apavorar uma candidata, deixando claro que ela era a segunda (e péssima) opção e, que num ato de altruísmo com magnitude só antes vista em USA for Africa – We are the world, ele estava lhe concedendo a chance de ouro da sua vida, quando, na verdade, ele estava tão desesperado em achar alguma otária para tapar o buraco na recepção como ela estava em se livrar do atual emprego (caixa na loja Besni do shopping Interlagos).cafebombom2
A entrevista prosseguiu com o cara sacando de uma maleta 007 os testes de português e lógica que ela havia realizado. Me ajeitei na poltroninha, cruzei a perna para o outro lado e, educadamente, solicitei a presença da barista. Certamente aqueles testes valeriam o café bombom que eu acabara de pedir.
O entrevistador pergunta:
– Você estava muito nervosa quando fez os testes?
– Bastante! Nossa, eu suei frio, fiquei muito nervosa.
– É, eu imaginei assim que dei uma olhada neles. Essa é a única explicação para os erros de português que eu vi ali. Ou era isso ou então você tem bastante dificuldade com o português.
(Bom, eu também tenho bastante dificuldade em lidar com o português. O Seu Manoel nunca deixa eu ficar devendo R$ 0,05 quando vou comprar pãozinho, é duro dobrar o velho).
O diálogo prossegue:
– Nessa questão de lógica – “segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado… Que palavra completa de forma correta essa seqüencia?” – Você respondeu domingo, certo?
– Isso, respondi domingo. Por quê? Não tá certo?
– Sim, está certo, mas você escreveu “domingo” errado.
Beberiquei meu café bombom e tentei imaginar onde ela poderia ter errado a palavra “domingo”. Se ainda fosse uma “tersa” ou “sesta” eu até entenderia, mas teria ela escrito “dumingú”? Aí já é demais!
– Aqui nessa pergunta – “Alguns meses têm 30 dias, outros 31. Quantos meses têm 28 dias?”, você respondeu 12 meses.
YES!!! Comemorei em pensamento. Não acredito que essa Equus mulus acertou uma questão com pegadinha.
A entrevista prossegue, agora com o teste de português em foco.
– Por favor, mocinha, você me consegue uma caneta e uma toalha de papel? Pede o algoz à garçonete.
– Em um minuto.
Aproveito o intervalo para finalizar o café bombom e para tentar evoluir à página 128, mas a garçonete mostrou-se mais competente do que previra, me impedindo de avançar 4 linhas sequer.
– Bom, agora eu vou pedir pra você escrever algumas palavras aí nesse papel que a moça trouxe. Eu vou falando e você vai escrevendo, tá?
– Tá bom…
– Escreve aí: Ambiente de trabalho… Gerência Financeira… Assistente de diretoria… Enfim, o cara pediu que ela escrevesse umas 15 palavras e frases, não vou lembrar de todas. Ao término da sabatina, ele tomou a toalha de papel nas mãos e começou a corrigir, com ares de Prof. Pasquale. A letra da candidata devia ser bem feia, porque ele não parava de perguntar a todo instante o que estava escrito, que letra era aquela, se aquilo era um “g” ou um “ç” e coisas do gênero. Depois de sanar todas as suas dúvidas, ele explicou que pediu a ela que escrevesse justamente as mesmas palavras / frases que ela errara na primeira vez que fez a provinha. Surpreendentemente, dessa vez ela acertara bem mais do que na primeira vez (apesar de ter escrito “ambiente com H – Hambiente), o que validou a tese do nervosismo, levantada no começo da conversa.
Ele explicou para a moça que, obviamente, não estava atrás de uma professora de português, afinal, até mesmo ele comete alguns equívocos de vez em quando. Prosseguiu dizendo que o cargo de recepcionista requer um pouco mais de cuidado com a escrita, uma vez que ela seria a responsável por anotar os recados da diretoria (que responsa!!! Diretoria!!!).
Com o papo já praticamente encerrado, ele pergunta o que a moça pretendia fazer para evoluir, seja na carreira ou na língua pátria. A resposta dela me deixou espavorido:
– Agora que terminei o 3º colegial, eu queria fazer faculdade de administração. Tem até a ver com o trabalho, né? (se ela não tivesse dito, mas escrito, tenho certeza que o resultado seria “Tem até haver com o trabalho, né?”).
Eu jurava, até então, que a pobre menina teria estudado só até a sexta série, face aos erros grotescos de português, bem como o vocabulário pobre e cheio de vícios.
Nesse momento, com o assunto girando em torno de estudo e afins, lembrei que só estava ali no café pra fazer uma horinha, tendo que ir buscar o Enzo na escola em seguida. Achei melhor pagar a conta e ir embora, mesmo sem saber o desfecho da entrevista. Já pensou se eu chego atrasado, deixo o Enzo nervoso e crio um trauma na criança? Provavelmente os próximos passos dele seriam:
1- Passa a odiar a escola;
2- Desenvolve ojeriza aos estudos;
3- Decide que aquilo não é pra ele;
4- Vai ganhar a vida como caixa da Besni;
5- Insatisfeito com o trabalho de caixa, vai em busca de novos horizontes (como recepcionista, por exemplo).