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Yes Man, mas nem tanto

Desde que migrei minha internet para 3 megas (Skavurska!!!), passo boa parte do meu tempo ocioso baixando filmes e jogos de Playstation pro Enzo (coisa linda baixar filmes em minutos). Pesquisando os últimos lançamentos na Blockbuster (que deu bye bye pro meu dinheiro), resolvi baixar Sim Senhor. Comecei a assistir um pouco desconfiado, afinal, ele havia sido elogiado pelo Guigão, famoso na rodinha por alugar filmes de gosto duvidoso – Quer um exemplo? Uma vez fizemos uma vaquinha (elas eram magras nessa época) e deixamos que ele fosse sozinho na locadora, com direito a escolher o filme por conta própria. O cara voltou com um sorriso no rosto, peito estufado, semblante do dever cumprido. Ao abrirmos a sacolinha, nos deparamos com o filme Uma Família Quase Perfeita. Acho que não precisaria dizer mais nada, mas houve episódio pior. Ele recomendou Dançando no Escuro, com a insuportável Bjork. Ali eu aprendi a lição.yes_man

Bom, filmes ruins à parte, lá fui eu assistir a Sim Senhor, com Jim Carrey e suas caretas. Filme legal…zinho, deu para dar umas risadas. A principal característica do filme é que todo mundo que assiste tem a mesma reação – A partir de agora, só direi SIM a tudo. Não adianta, mesmo que você tente fugir da mesmice, do lugar comum, você também vai fazer essa infeliz piadinha em algum momento (e se não disser, vai pensar). Assim foi comigo, logo que o letreiro subiu. Fiz a piadinha para minha esposa, já sabendo dos abusos que viriam a seguir – “Eliane, de agora em diante sou um Yes Man”. E o abuso não tardou: ”Vai pegar água”, ”vai por o Enzo na cama”, “Vai sacar o dinheiro da empregada e aproveita e faz o resto do mercado”… SIM !!!!!!! Fiz tudinho, e com sorriso no rosto.

Tarefas terminadas, fui dormir o sono dos justos. Bom, não devo ser muito justo, porque fui acordado logo cedo por, digamos assim, uma mocinha do “telemarketing ativo do bem”:  

– Sr. Carlos?

– O Próprio.

– Bom dia, aqui é a Rafaela Soares, da Casa de Apoio à Criança com Câncer (confesso não lembrar se era esse mesmo o nome da instituição, pois o sono era devastador).

– Bom dia Rafaela Soares (normalmente, quando atendo a uma ligação que começa com “Bom dia Sr. Carlos”, desligo na cara, sem dó… Mas os reflexos lentos em virtude do sono, somados às palavras “criança” e “câncer” me fizeram ter um respeito maior pela interlocutora).

– Estamos precisando comprar 2 ampolas de remédio para a pequena Fabiana, que tem 6 anos e está com câncer longitudinal mediástico de grau inverso e inclinação negativa elíptica (em hipótese alguma estou fazendo paródia com algo tão devastador, mas a mocinha especificou o tipo de câncer tão rápido, de uma maneira tão enrolada, e eu estava em estado de absoluta letargia, que o resultado em meu cérebro foi algo parecido com isso), e estamos precisando estar comprando essas ampolas, uma vez que o governo não fornece (isso sim é fazer paródia com o sofrimento alheio). Olha, Sr. Carlos, cada ampola custa aproximadamente R$ 500,00 e gostaríamos de poder estar contando com sua ajuda.

Aquilo realmente me tocou, afinal, tratava-se da vida de uma criança. Criança é tudo de bom, criança é alegria, criança é amor sincero, criança é… vida. Mas, sem ter rendimento fixo no momento, devendo o barril pro banco (a cueca já foi) e em débito com qualquer lugar onde seja possível se fazer uma dívida, não poderia ajudar (para minha sincera infelicidade), ao que respondo:

– Poxa vida, Rafaela… Faço sinceros votos que vocês consigam ajudá-la, mas se você conseguiu falar comigo a essa hora e em casa é porque, infelizmente, estou desempregado. Dessa vez não poderei ajudar. Mas continue com esse empenho que ainda hoje a Fabiana vai conseguir o que precisa e o governo não dá.

Ela agradeceu e desejou que Deus pudesse me abençoar com uma recolocação rápida no mercado de trabalho. Em retribuição, lhe agradeci por sua atuação numa tarefa tão difícil, que é esmolar aos outros o que é dever do governo fornecer (não preciso nem citar os direitos de um cidadão, que constam da carta magna deste país).

No exato momento em que desliguei o telefone, me dei conta de que a brincadeira do “Yes Man” não durou nem 12 horas. É muito mais fácil na ficção.